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Infância

O toque do sino, anunciando as horas, fez-se ouvir, quebrando o silêncio e trazendo-o de volta à realidade. Não dera pelo tempo passar, absorto e perdido em pensamentos, arrastado para as memórias com que ia esbarrando a cada divisão da casa, que ia percorrendo com vagar. Como não lembrar daquela casa cheia de vida, repleta de gente, numa permanente azáfama, típica das famílias numerosas.   De repente, era de novo um menino, perdido em tropelias com os irmãos, qual deles o mais travesso. A voz da mãe a chamar para a mesa, o cheirinho da comida de conforto, memórias tão vívidas que um arrepio lhe percorreu a espinha. Tateou a mesa da sala, onde tantas vezes partilharam refeições, risos e alegrias. A sala de jantar testemunha dos momentos mais felizes, mas também dos mais tristes, como as despedidas dos avós e, mais tarde, dos pais. Piscou os olhos, na ânsia de afastar as lágrimas que ameaçavam brotar. Invadiu-o a nostalgia, sentindo ecoar, num lamento, a canção de Pedro Abrunho...

Leva-me de regresso ao passado

  Leva-me de regresso ao passado A um tempo sem tempo, sem noção do finito Onde todos os sonhos eram permitidos e passíveis de concretizar Onde um dia mais não representava um dia menos no calendário da vida Onde as lágrimas eram de riso e não de dor Onde fintávamos a inocência com a ousadia de experienciar Onde crescer era correr sem ver o fim da estrada Leva-me de regresso ao passado A um tempo onde o pouco era tanto, ainda que fosse quase nada.  Quando éramos todos à mesa.