Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta dor

Vida

Há dias maus e há dias muito maus. E depois há os outros, os verdadeiramente muito maus, a que, caso tivéssemos escolha, nos furtaríamos. São um verdadeiro murro no estômago, que nos atiram “borda fora”, que nos roubam o chão. Que fazem doer. Porém, há os dias bons e os dias muito bons. E depois há os dias excecionalmente esplêndidos. Verdadeiramente felizes. Energia positiva que alimenta o corpo e a alma. Que aquece o coração. Ambos, os dias bons e os dias maus, deixam marca, acentuada ou mais ténue. São memórias que carregamos, e que, a espaços, regressam, ainda que não as convoquemos. São memorandos, páginas de um livro que se vai avolumando de uma história cujo desfecho desconhecemos.

Vidas

Sempre a vi como o espelho da dor. Dois rudes golpes, a par de todas as outras dores que foi acumulando, mataram-na, ainda que se mantivesse viva. Não é preciso estar na pele do outro para perceber o seu sofrimento, contudo, é impossível medir a mágoa que sufoca o coração e enegrece a alma. Perder um filho, depois o outro. É a morte em vida, seguramente. Resiliência é um eufemismo para quem tem de prosseguir depois de tudo ter acabado. Sobreviver, porque viver é outra coisa.

Choque

Um vazio incomensurável tomou conta de si. Por momentos, o chão pareceu fugir-lhe dos pés, uma tontura quase o derrubou. Um silêncio gritante ecoava na sua mente, não lhe permitindo sequer pensar. Intentou uma passada, mas as pernas não lhe obedeceram. Tentou falar, todavia não conseguiu articular palavra. Viu-se refletido no espelho e não reconheceu esse outro que o mirava atordoado. Preso, amordaçado, completamente dominado pelo choque. A morte batia-lhe à porta.

Regresso ao passado

Regresso, amiúde, ao passado. Quando a ausência faz doer entrego-me aos pensamentos, mergulho na emoção de dias felizes e deixo-me envolver por doces recordações. Nessa espécie de viagem virtual (re)vivo esse tempo em que o futuro não era mais do que um horizonte longínquo. Mas o tempo, esse supremo traidor, corre, pula e avança como se tivesse pressa de chegar a algum lado. Como quem derruba peças de um dominó, abrevia as horas, os dias, os anos, tornando cada vez mais extenso o caminho percorrido e cada vez mais diminuto o percurso a trilhar. Não tinha a noção do finito. Fui esbarrando nessa incontornável realidade, ao longo do tempo. São já tantos os embates! As marcas ficam no coração e na alma. Regresso, por isso, muitas vezes ao passado. Para trazer ao presente quem se foi, para apaziguar a dor e a saudade.  

Perda

Deambulava ao acaso no frenesim da cidade. Caminhava sem saber para onde, sem ver com quem se cruzava, sem sentir a azáfama da urbe. Os seus pés arrastavam-se no chão, como se carregasse o mundo às costas. O olhar, esse era infinitamente triste, carregado de mágoa, espelhando a dor que sentia no mais íntimo do seu ser. Sem intenção alguma, entrou por uma porta ampla, de madeira envelhecida. Não sentiu, tão pouco se deixou envolver pela paz daquele lugar sagrado. Deu por si de joelhos, ante a imagem da Virgem. Fechou os olhos para de novo os abrir e fitar a imagem, já as lágrimas escorrendo, sem controlo algum, pelo rosto marcado pelas noites sem dormir. Desejou o mesmo destino que lhe roubara o seu amor, o seu amado filho, o seu único filho, uma vida ceifada na flor da idade, num acidente igual a tantos outros que sucedem todos os dias, a toda a hora, em qualquer parte do mundo, mutilando famílias que nunca superarão tão horrenda perda. Como era grande e tão insuportavelmente doloro...

Dor

A dor está só adormecida. Não desapareceu. Não te abandona ainda que a tentes fintar fingindo uma felicidade que mais não é do que a couraça que vestes para tua defesa. Ela está lá. Tu sentes que te acompanha. Pesa-te. Dói. É a tua dor. És tu que a carregas.

Só um abraço

Só preciso de um abraço, nada mais do que um abraço. Um abraço apertado, que me prenda para que eu não corra rua fora a gritar. De raiva, de revolta, de fúria, sentindo-me vítima de uma tremenda injustiça. Perguntando e voltando a perguntar “porquê?”. Não há uma resposta que conforte, que acalme esta dor. Sei-o bem. Tu também o sabes. Porque a viveste ou porque conviveste com ela. Só preciso de um abraço, um abraço bem apertado, para sentir que não estou só.

Casa vazia

Caminha devagar, sem pressa de chegar ao destino. Não tem ninguém à sua espera, por isso tanto faz mais cedo como mais tarde. Aguarda-o uma casa vazia, onde outrora havia companhia. Hoje, resta apenas ele. As paredes agora despidas exibiam retratos de uma família que deixou de o ser. Uma história igual a tantas outras, que o destino se encarregou de escrever indiferente à vontade dos protagonistas. A agitação de uma cidade que se despede de mais um dia traz-lhe à memória os tempos em que ansiava pelo regresso a casa, para o aconchego do lar, em busca do merecido repouso, onde o aguardavam os mais doces sorrisos e os abraços mais reconfortantes. Caminha devagar, porque não há pressa agora. O destino pregou-lhe a mais injusta e traiçoeira de todas as rasteiras e, de uma só vez, levou-lhe todas as razões que o faziam sorrir.