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Superação

Resiste a atribuir-se culpas negando a consciência pesada que, por certo, lhe roubaria o sossego. Abomina a vitimização, entendendo-a como um sinal dos fracos. Não se permite fraquejar, ciente de que facilmente embarcaria numa viagem de difícil regresso. Já antes mergulhara nessa espiral depressiva, sem força ou ânimo para emergir desse pântano lodoso que lhe tolhera o corpo e a mente. Considera-se um sobrevivente, por isso se faz forte, ainda que, por vezes, a vulnerabilidade o embale, arrastando-o para a escuridão. Constrói novas memórias para os dias que hão de vir. Enche o peito de ar, como se quisesse garantir reserva para as alturas em que lhe falta. Sai à rua, dança com o vento, deixa-se beijar pelo sol e embalar pela melodia do mar. Regressa aos lugares onde foi feliz, em busca do abraço que o conforta.

Ódio

Não é da raiva que te falo. É de um sentimento tanto ou mais corrosivo, que, sorrateiramente, se foi instalando e ganhando vontade própria. Estás preso nos seus tentáculos e já não o controlas. Reside em ti, às vezes adormecido, outras em total ebulição, mas sempre presente. Sabes de que te falo? Tomou conta de ti, não te dás conta? É ele no comando quando vociferas palavras cáusticas, expondo essa amargura que fez morada em ti, aniquilando o quanto de bom encerras no teu íntimo. É tóxico, puro veneno. O teu maior erro foi tê-lo deixado entrar, tornou-se hóspede permanente. Mora em ti. Tu já não és tu. És um ser completa e totalmente subjugado, mas que pensa ter ainda controlo sobre as suas emoções.   Não percas, contudo, a esperança. Há um antídoto eficaz para matar esse bicho mordaz e letal que é o ódio. Chama-se AMOR. Deixa-o entrar no teu coração.

Raiva em estado puro

Que raiva é esta que me consome as entranhas, me tolda o discernimento e anula a razão? De que raio de amálgama é feita esta coisa que passou a viver em mim, que pensa por mim, fala por mim, age por mim? Como travar uma batalha se não sei quem é o inimigo, se não tenho armas, munições, nem tão pouco estratégia? São mudos os gritos que berro, de outro modo como poderias não me ouvir?

Resiliência

Como se cumprisse um guião o cinzento acompanha-a. Desde sempre. Umas vezes mais persistente, outras quase ausente, mas permanentemente presente. Nunca quis que a sua vida fosse um rascunho traçado a lápis de carvão, aspirou sempre a uma tela colorida, com traços bem marcados e definidos. Mas a vida é dada a caprichos e obriga a novos recomeços constantemente. Não permite que as cores brilhem por demasiado tempo e o pardacento volta a instalar-se sem deixar perceber por quanto tempo. Enquanto a resiliência durar está prometida uma guerra de cores.

Prometeste envelhecer a meu lado

Não consigo deixar de pensar que prometeste envelhecer a meu lado. De que valem as palavras se as proferimos levianamente, qual bolas de sabão sopradas ao vento? Não se deve prometer o que não sabemos ser capazes de cumprir, já devias saber. Mesmo assim prometeste. E eu acreditei que iria chegar ao Outono da vida contigo a meu lado. Mentiste-me, iludiste-me, enganaste-me. Odeio-te por isso. Onde estás tu quando os meus passos vacilam e as nuvens negras baixam sobre a minha cabeça, pesando-me sobre os ombros? Prometeste envelhecer a meu lado, lembras-te? Deixaste-me a percorrer sozinha esse caminho desenhado para ser trilhado a par. Resta-me o consolo de que não foi tua a escolha e deixo o sol entrar porque sei que és tu para me dar um abraço.

Nunca tive jeito com as palavras

Nunca tive jeito com as palavras. Caíam qual folhas secas no despontar do Outono quando me envolvias em teus braços e me transportavas para outra dimensão. Nunca tive jeito com as palavras. Sumiam-se de cada vez que desenhavas no abstracto um futuro de sonho e me fazias crer no impossível. Nunca tive jeito com as palavras. Ficavam estranguladas na garganta quando dizias que eu era o teu mundo e me fazias sentir a estrela mais brilhante do Universo.   Nunca tive jeito com as palavras. Não fui capaz de, através delas, fazer-me entender quando tentei justificar o injustificável. Não perdoaste o imperdoável e eu, sem jeito com as palavras, deixei o silêncio falar mais alto. Nunca tive jeito com as palavras. Não as encontrei quando precisei delas para dar respostas às tuas questões. Impuseste o ponto final. Nunca tive jeito com as palavras. Não achei que fosse importante dizê-las porque achava que me entendias sem que fosse necessário falar. Não aprendes...