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Vida

Há dias maus e há dias muito maus. E depois há os outros, os verdadeiramente muito maus, a que, caso tivéssemos escolha, nos furtaríamos. São um verdadeiro murro no estômago, que nos atiram “borda fora”, que nos roubam o chão. Que fazem doer. Porém, há os dias bons e os dias muito bons. E depois há os dias excecionalmente esplêndidos. Verdadeiramente felizes. Energia positiva que alimenta o corpo e a alma. Que aquece o coração. Ambos, os dias bons e os dias maus, deixam marca, acentuada ou mais ténue. São memórias que carregamos, e que, a espaços, regressam, ainda que não as convoquemos. São memorandos, páginas de um livro que se vai avolumando de uma história cujo desfecho desconhecemos.

Vida

  Bateu com a porta, resoluta, pondo fim a um ciclo. Demorou a tomar a decisão, mas, a partir do momento em que a ideia de virar a página não mais a deixou serenar, não havia como deixar tudo como estava. A inquietude foi crescendo, ganhou forma de coragem e impeliu-a a dar o passo. Enfrentou o medo, afastou as dúvidas, ignorou as incertezas. Não buscava uma nova vida, somente foi ao encontro da vida.

Puzzle da vida

Seguir a mesma direção, trilhar o mesmo caminho, não nos torna iguais. Não são tuas as minhas dores, não te consomem as minhas preocupações, tão pouco te derrubam os meus fracassos. Não sentes as minhas perdas, não choras as minhas lágrimas, nem vives as minhas angústias. Não vibras com as minhas alegrias, não festejas as minhas conquistas, não te arrebata o meu sucesso. Seremos iguais quando as tuas peças encaixarem no mesmo puzzle da vida. 

Resiliência

Como se cumprisse um guião o cinzento acompanha-a. Desde sempre. Umas vezes mais persistente, outras quase ausente, mas permanentemente presente. Nunca quis que a sua vida fosse um rascunho traçado a lápis de carvão, aspirou sempre a uma tela colorida, com traços bem marcados e definidos. Mas a vida é dada a caprichos e obriga a novos recomeços constantemente. Não permite que as cores brilhem por demasiado tempo e o pardacento volta a instalar-se sem deixar perceber por quanto tempo. Enquanto a resiliência durar está prometida uma guerra de cores.

Tempestades da vida

E, então, quando pensas que tens tudo sob controlo, vem uma onda e arrasta-te, sem sequer te dar tempo para reagires. Já só te dás conta da tempestade quando derivas no alto mar, fustigado pela forte ondulação e sem vislumbrar qualquer porto de abrigo. De nada vale gritares porque não te farás ouvir. Contudo, gritas, gritas até estares esgotado. E eis que vês a luz, a luz que nunca deixou de estar presente, mas que não vias porque estavas cego pelo desespero. Consegues ver claro agora, as ondas amainaram e as águas são calmas. A tempestade passou. Venceste-a. Lembra-te, porém, que as tempestades surgem quando menos as esperas. 

Coragem de viver

Dá-me as tuas asas para eu voar, a tua coragem para ousar, a tua força para enfrentar obstáculos, a tua confiança para me superar. Tenho asas que não alcançam mais do que um voo rasteiro, a coragem para calculados passos, a força para tirar as pequenas pedras do caminho, a confiança que não passou da infância. É melhor caminhar em terreno plano do que trepar montanhas, mas nem sempre o trilho mais fácil é o que nos faz mais felizes. Da vida não se pretende que seja uma reta, mas um trajeto onde as curvas foram vencidas, as pontes atravessadas, os cumes alcançados. Só assim vale a pena viver.