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Infância

O toque do sino, anunciando as horas, fez-se ouvir, quebrando o silêncio e trazendo-o de volta à realidade. Não dera pelo tempo passar, absorto e perdido em pensamentos, arrastado para as memórias com que ia esbarrando a cada divisão da casa, que ia percorrendo com vagar. Como não lembrar daquela casa cheia de vida, repleta de gente, numa permanente azáfama, típica das famílias numerosas.   De repente, era de novo um menino, perdido em tropelias com os irmãos, qual deles o mais travesso. A voz da mãe a chamar para a mesa, o cheirinho da comida de conforto, memórias tão vívidas que um arrepio lhe percorreu a espinha. Tateou a mesa da sala, onde tantas vezes partilharam refeições, risos e alegrias. A sala de jantar testemunha dos momentos mais felizes, mas também dos mais tristes, como as despedidas dos avós e, mais tarde, dos pais. Piscou os olhos, na ânsia de afastar as lágrimas que ameaçavam brotar. Invadiu-o a nostalgia, sentindo ecoar, num lamento, a canção de Pedro Abrunho...

Aroma

O aroma perpassou-lhe as narinas e despertou-lhe os sentidos. Como que sacudida de um sono tranquilo mergulhou numa espiral de recordações. As memórias, sempre elas, a arrastarem-na para um passado que ainda não conseguira deixar para trás. O olfacto convocou os demais sentidos e ela deixou-se levar. Esqueceu-se de onde estava e de tudo quanto a rodeava. Estava de novo no tempo e na história que quisera para sempre, pudesse ter mão no destino. Não foi a brisa que lhe arrepiou a pele. Foi a intensidade das recordações. Porque o Amor tem muitos aromas.

Não me roubem as memórias

Não me roubem as memórias. Tirem-me tudo menos as memórias. Que seria de mim sem elas? Uma vida sem passado, um livro com páginas em branco, um filme sem imagens. O vazio. A ausência total e completa de um percurso feito de risos e lágrimas, alegria e dor. Mais do que o registo das vivências, as memórias são a armadura que me sustém. Não me roubem as memórias. Sem elas nada sou.

Memórias

Fomos o tanto que por ser demasiado não soubemos manter. Fomos o tudo que quisemos para sempre esquecendo que o eterno só o é enquanto dura. Fomos o real quando as nuvens eram o nosso chão. Fomos verdade na mentira de uma história por contar. Fomos estrela sem firmamento porque não cabíamos no infinito. Fomos certeza na dúvida do futuro. Fomos luz nas trevas. Fomos paz na guerra. Fomos silêncio no tumulto. Fomos água na terra árida. Fomos brasa no frio do Inverno. Fomos.