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Lugares sombrios

Deixa-me falar-te das noites em que não consigo dormir, em que a mente não se deixa serenar e teima em abrir portas. No escuro da noite não são os momentos felizes que me vêm à memória. São, inevitavelmente, aqueles que apreciaria manter adormecidos. De nada adianta tentar contrariar o pensamento quando ele voa para esses lugares, é como tentar travar o vento. É nessas longas e penosas noites que me assaltam as lembranças, não as que confortam e aquecem o coração, mas as outras, onde o sol não brilha. Sou arrastada para lugares sombrios e mantida refém, incapaz de afastar o negro véu que me cobre. Só quando o amanhecer afasta o escuro da noite sou libertada, ainda que presa permaneça.

Abraço

A ausência desse abraço tolhe-me. Traz-me inquieta, desde que acordo até que adormeço. Mas não é a ansiedade que me apoquenta. É a incerteza do quando.  A distância física tornou-se também afetiva. E dói, qual ferida aberta. Dói no corpo e dói no coração. Dói na alma. A saudade desse abraço deixa-me exaurida, extenua-me. É um vazio que não se esvazia. É a nuvem num dia de sol. O abraço não é só uns braços que nos acolhem, nos apertam e nos levantam do chão. Abraço é vida. Havemos de voltar à vida.  

Ver

Olhar, mas Ver.  Despojar-se de quaisquer barreiras ou preconceitos para poder captar para além do que os olhos veem. Saborear despojadamente como o primeiro mergulho no mar após um longo e deprimente inverno. Ver, não apenas Olhar. Libertar os sentidos para usufruir em toda a plenitude. As formas que dão corpo, a cor que dá vida ou se esbate, o movimento que lembra a efemeridade da existência, o som que pode ser barulho ou melodia… Ver é imensamente mais do que simplesmente Olhar. É deixar que os olhos cheguem ao coração e façam cócegas na alma.

De alma aberta

Reescreve o guião de uma história a que assistiu na vida real e na tela. Das promessas de amor eterno, da dedicação extrema à rotina que se instala, até à quase indiferença. Conhece de cor o final do filme, onde ela própria foi personagem. Julgava o seu coração adormecido, mas sentiu-o despertar qual flor a desabrochar sob o sol da Primavera. Ei-la de novo de alma aberta, numa alegria adolescente, pronta a desfrutar de fortes e intensas emoções. Com os pés no chão e a cabeça nas nuvens, ela entrega-se na esperança de um happy end.