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A mostrar mensagens com a etiqueta Perda

Vidas

Sempre a vi como o espelho da dor. Dois rudes golpes, a par de todas as outras dores que foi acumulando, mataram-na, ainda que se mantivesse viva. Não é preciso estar na pele do outro para perceber o seu sofrimento, contudo, é impossível medir a mágoa que sufoca o coração e enegrece a alma. Perder um filho, depois o outro. É a morte em vida, seguramente. Resiliência é um eufemismo para quem tem de prosseguir depois de tudo ter acabado. Sobreviver, porque viver é outra coisa.

Choque

Um vazio incomensurável tomou conta de si. Por momentos, o chão pareceu fugir-lhe dos pés, uma tontura quase o derrubou. Um silêncio gritante ecoava na sua mente, não lhe permitindo sequer pensar. Intentou uma passada, mas as pernas não lhe obedeceram. Tentou falar, todavia não conseguiu articular palavra. Viu-se refletido no espelho e não reconheceu esse outro que o mirava atordoado. Preso, amordaçado, completamente dominado pelo choque. A morte batia-lhe à porta.

Faltam-me pedaços

Faltam-me pedaços, não sou inteira. Qual crivo cravado de buracos, assim sou  eu.  A cada perda há um vazio que se abre, que não mais fecha, passe o tempo que passar. A cada desilusão fica exposta a ferida da dor, que não chega nunca a sarar. A cada fracasso agiganta-se esse fantasma da derrota ficando sempre à espreita. Faltam-me pedaços, a vida anda a roubar-me, continua a roubar-me. Tira-me pessoas, tira-me momentos, tira-me sorrisos, tira-me alegria, tira-me alento… Só é inteiro quem não se dá, quem não arrisca, quem não se atreve. Só é inteiro quem nunca amou.

Nunca tive jeito com as palavras

Nunca tive jeito com as palavras. Caíam qual folhas secas no despontar do Outono quando me envolvias em teus braços e me transportavas para outra dimensão. Nunca tive jeito com as palavras. Sumiam-se de cada vez que desenhavas no abstracto um futuro de sonho e me fazias crer no impossível. Nunca tive jeito com as palavras. Ficavam estranguladas na garganta quando dizias que eu era o teu mundo e me fazias sentir a estrela mais brilhante do Universo.   Nunca tive jeito com as palavras. Não fui capaz de, através delas, fazer-me entender quando tentei justificar o injustificável. Não perdoaste o imperdoável e eu, sem jeito com as palavras, deixei o silêncio falar mais alto. Nunca tive jeito com as palavras. Não as encontrei quando precisei delas para dar respostas às tuas questões. Impuseste o ponto final. Nunca tive jeito com as palavras. Não achei que fosse importante dizê-las porque achava que me entendias sem que fosse necessário falar. Não aprendes...

Perda

Deambulava ao acaso no frenesim da cidade. Caminhava sem saber para onde, sem ver com quem se cruzava, sem sentir a azáfama da urbe. Os seus pés arrastavam-se no chão, como se carregasse o mundo às costas. O olhar, esse era infinitamente triste, carregado de mágoa, espelhando a dor que sentia no mais íntimo do seu ser. Sem intenção alguma, entrou por uma porta ampla, de madeira envelhecida. Não sentiu, tão pouco se deixou envolver pela paz daquele lugar sagrado. Deu por si de joelhos, ante a imagem da Virgem. Fechou os olhos para de novo os abrir e fitar a imagem, já as lágrimas escorrendo, sem controlo algum, pelo rosto marcado pelas noites sem dormir. Desejou o mesmo destino que lhe roubara o seu amor, o seu amado filho, o seu único filho, uma vida ceifada na flor da idade, num acidente igual a tantos outros que sucedem todos os dias, a toda a hora, em qualquer parte do mundo, mutilando famílias que nunca superarão tão horrenda perda. Como era grande e tão insuportavelmente doloro...

Só um abraço

Só preciso de um abraço, nada mais do que um abraço. Um abraço apertado, que me prenda para que eu não corra rua fora a gritar. De raiva, de revolta, de fúria, sentindo-me vítima de uma tremenda injustiça. Perguntando e voltando a perguntar “porquê?”. Não há uma resposta que conforte, que acalme esta dor. Sei-o bem. Tu também o sabes. Porque a viveste ou porque conviveste com ela. Só preciso de um abraço, um abraço bem apertado, para sentir que não estou só.

Casa vazia

Caminha devagar, sem pressa de chegar ao destino. Não tem ninguém à sua espera, por isso tanto faz mais cedo como mais tarde. Aguarda-o uma casa vazia, onde outrora havia companhia. Hoje, resta apenas ele. As paredes agora despidas exibiam retratos de uma família que deixou de o ser. Uma história igual a tantas outras, que o destino se encarregou de escrever indiferente à vontade dos protagonistas. A agitação de uma cidade que se despede de mais um dia traz-lhe à memória os tempos em que ansiava pelo regresso a casa, para o aconchego do lar, em busca do merecido repouso, onde o aguardavam os mais doces sorrisos e os abraços mais reconfortantes. Caminha devagar, porque não há pressa agora. O destino pregou-lhe a mais injusta e traiçoeira de todas as rasteiras e, de uma só vez, levou-lhe todas as razões que o faziam sorrir.