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Outono da vida

  Chegou ao outono da vida sem se dar conta de como o futuro se fez presente tão cedo. O caminho outrora tão longo tornou-se curto, como a meta que se avista na reta final da corrida. A infância onde ontem brincava não passa de uma memória longínqua e a primavera da vida de tão efémera está igualmente distante.  Chegou ao outono da vida como quem chega ao fim do percurso sem ter gozado a viagem. A idade confere sabedoria, mas impõe lucidez. O tempo que sempre lhe faltou sobra-lhe agora. Pesam, contudo, as ausências e já não é possível recuperar abraços.

Libertação

E, de repente, colocar tudo em causa. Interrogações que se atropelam. Perguntas a exigir respostas. A sombra que ofusca a claridade. A dúvida que se agiganta. O medo a ganhar espaço. A dor que aperta no peito. A melodia que se tornou ruído. O sorriso que se apaga. E, de repente, perder o controlo. A incapacidade de dominar a mente. O mergulho no escuro. A vontade de acabar com o sofrimento. E, de repente, a libertação.

Superação

Resiste a atribuir-se culpas negando a consciência pesada que, por certo, lhe roubaria o sossego. Abomina a vitimização, entendendo-a como um sinal dos fracos. Não se permite fraquejar, ciente de que facilmente embarcaria numa viagem de difícil regresso. Já antes mergulhara nessa espiral depressiva, sem força ou ânimo para emergir desse pântano lodoso que lhe tolhera o corpo e a mente. Considera-se um sobrevivente, por isso se faz forte, ainda que, por vezes, a vulnerabilidade o embale, arrastando-o para a escuridão. Constrói novas memórias para os dias que hão de vir. Enche o peito de ar, como se quisesse garantir reserva para as alturas em que lhe falta. Sai à rua, dança com o vento, deixa-se beijar pelo sol e embalar pela melodia do mar. Regressa aos lugares onde foi feliz, em busca do abraço que o conforta.

Amor quebrado

  Que é feito dos sorrisos que chegavam aos olhos e aqueciam por dentro? Que é feito do toque, do afago carinhoso, do abraço apertado, que dispensavam palavras? Que é feito das manhãs cheias de promessas de dias gloriosos? Que é feito das noites e das madrugadas que abriam a porta a despertares mágicos? Que é feito dos risos e das gargalhadas sonoras que rebentavam pela mais banal  razão ? Que é feito da cumplicidade que nos colocava em sintonia? Que é feito das promessas juradas e dos sonhos partilhados? Que é feito das palavras que refletiam gentileza, simpatia, respeito? A culpa é do nó que nos prendia ao invés de nos unir.  

Onde mora a saudade

A saudade mora no meu coração. Assentou morada no dia em se fez física a tua ausência. É como um órgão extra que o meu corpo acolheu. Vive em mim. Desde que acordo até que me deito tenho permanente consciência dela. Às vezes afaga-me o coração como um sopro leve, uma carícia suave, um sorriso caloroso, um abraço confortante. É uma saudade apaziguadora, que traz à memória tanto do bom que partilhamos. Outras vezes é um aperto no coração, uma dor dilacerante, uma nuvem a cobrir o sol. Obrigo-me a levantar do chão e a procurar a luz. A saudade continuará a morar no meu coração enquanto a memória existir.

Vida

  Bateu com a porta, resoluta, pondo fim a um ciclo. Demorou a tomar a decisão, mas, a partir do momento em que a ideia de virar a página não mais a deixou serenar, não havia como deixar tudo como estava. A inquietude foi crescendo, ganhou forma de coragem e impeliu-a a dar o passo. Enfrentou o medo, afastou as dúvidas, ignorou as incertezas. Não buscava uma nova vida, somente foi ao encontro da vida.

Obsessão

Tornou-se visceral. Agigantou-se de tal modo que quando deu fé já escapara ao seu controlo. Num exercício de memória, procurou precisar no tempo o momento em que o sentimento o dominou, fazendo-o refém. Tornou-se adicto, ele que sempre se esquivou a toda e qualquer dependência. Equipara a adrenalina que lhe corre nas veias a uma qualquer substância que, num ápice, eleva aos píncaros o mais moribundo dos seres. Como lhe chamar amor, quando, na realidade, é obsessão?!