Erguida naquela encosta, impõe-se na paisagem. Uma pincelada de cor em dias cinzentos e um pedaço de céu em dias de sol. Em redor, a serra, densa, verdejante. Na vista desafogada, o mar imenso, revolto em dias de tempestade, nos outros um lago onde apetece mergulhar. Na casa azul há vida, ainda que vozes não se ouçam. Umas vezes risos, outras lágrimas, palavras sussurradas ou gritos, abraços sentidos ou frias despedidas. Na casa azul, tal como em todas as outras casas, a vida acontece, caem os dias no calendário, os meses, os dias, os anos. Sucedem-se gerações, vão-se os velhos, ficam os novos. E o mar sempre como testemunha, vigilante permanente.
Há dias maus e há dias muito maus. E depois há os outros, os verdadeiramente muito maus, a que, caso tivéssemos escolha, nos furtaríamos. São um verdadeiro murro no estômago, que nos atiram “borda fora”, que nos roubam o chão. Que fazem doer. Porém, há os dias bons e os dias muito bons. E depois há os dias excecionalmente esplêndidos. Verdadeiramente felizes. Energia positiva que alimenta o corpo e a alma. Que aquece o coração. Ambos, os dias bons e os dias maus, deixam marca, acentuada ou mais ténue. São memórias que carregamos, e que, a espaços, regressam, ainda que não as convoquemos. São memorandos, páginas de um livro que se vai avolumando de uma história cujo desfecho desconhecemos.

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