Deixa-me falar-te das noites em que não consigo dormir, em que a mente não se deixa serenar e teima em abrir portas. No escuro da noite não são os momentos felizes que me vêm à memória. São, inevitavelmente, aqueles que apreciaria manter adormecidos. De nada adianta tentar contrariar o pensamento quando ele voa para esses lugares, é como tentar travar o vento. É nessas longas e penosas noites que me assaltam as lembranças, não as que confortam e aquecem o coração, mas as outras, onde o sol não brilha. Sou arrastada para lugares sombrios e mantida refém, incapaz de afastar o negro véu que me cobre. Só quando o amanhecer afasta o escuro da noite sou libertada, ainda que presa permaneça.
Há dias maus e há dias muito maus. E depois há os outros, os verdadeiramente muito maus, a que, caso tivéssemos escolha, nos furtaríamos. São um verdadeiro murro no estômago, que nos atiram “borda fora”, que nos roubam o chão. Que fazem doer. Porém, há os dias bons e os dias muito bons. E depois há os dias excecionalmente esplêndidos. Verdadeiramente felizes. Energia positiva que alimenta o corpo e a alma. Que aquece o coração. Ambos, os dias bons e os dias maus, deixam marca, acentuada ou mais ténue. São memórias que carregamos, e que, a espaços, regressam, ainda que não as convoquemos. São memorandos, páginas de um livro que se vai avolumando de uma história cujo desfecho desconhecemos.

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