Ouço vozes ao longe. Vêm em ondas, tornando-se cada vez mais claras ao ritmo do meu lento acordar. Dás-me a tua mão e eu agarro-a qual bóia de salvação, como se dela dependesse a minha sobrevivência. Dizes o meu nome baixinho, num sussurro soprado ao meu ouvido. Respondo com um sorriso. Desafias-me a ir ver o mar e arrastas-me até à varanda. Sumiram-se as vozes e nada mais se ouve que o barulho das ondas, num suave ondular, qual música que nos embala. Ignoramos deliberadamente o relógio, obrigando-o a dar-nos o tempo que nos tem faltado.
Há dias maus e há dias muito maus. E depois há os outros, os verdadeiramente muito maus, a que, caso tivéssemos escolha, nos furtaríamos. São um verdadeiro murro no estômago, que nos atiram “borda fora”, que nos roubam o chão. Que fazem doer. Porém, há os dias bons e os dias muito bons. E depois há os dias excecionalmente esplêndidos. Verdadeiramente felizes. Energia positiva que alimenta o corpo e a alma. Que aquece o coração. Ambos, os dias bons e os dias maus, deixam marca, acentuada ou mais ténue. São memórias que carregamos, e que, a espaços, regressam, ainda que não as convoquemos. São memorandos, páginas de um livro que se vai avolumando de uma história cujo desfecho desconhecemos.

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