Mais tarde ou mais cedo há-de
falar, desembrulhando as palavras que mantém cárceres da sua cobardia. Não alcançou
ainda a patamar que lhe conferirá a segurança e a coragem para falar o que há
muito traz abafado no peito. Às vezes é como se estivesse junto ao precipício,
pronta a saltar, sem medos. Nessas alturas, chega até a achar ridículo tanto
receio de se expor e acha-se capaz dos feitos mais audazes, ainda que em causa
esteja só falar, dizer o que sente. São, porém, arrojos momentâneos, que se
diluem tão rápido como o sol em dia de chuva. Ensaia incontáveis vezes formas e
meios de o dizer, chega até a sentir a leveza espiritual que o desabafo, que
não o foi, proporciona, mas é também efémera a sensação. Um dia, diz para si
própria. Um dia não mais conseguirá calar as palavras que lhe queimam os lábios
e travar o ímpeto de confessar o amor que despertou no seu coração.
Há dias maus e há dias muito maus. E depois há os outros, os verdadeiramente muito maus, a que, caso tivéssemos escolha, nos furtaríamos. São um verdadeiro murro no estômago, que nos atiram “borda fora”, que nos roubam o chão. Que fazem doer. Porém, há os dias bons e os dias muito bons. E depois há os dias excecionalmente esplêndidos. Verdadeiramente felizes. Energia positiva que alimenta o corpo e a alma. Que aquece o coração. Ambos, os dias bons e os dias maus, deixam marca, acentuada ou mais ténue. São memórias que carregamos, e que, a espaços, regressam, ainda que não as convoquemos. São memorandos, páginas de um livro que se vai avolumando de uma história cujo desfecho desconhecemos.

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