Tenho memória de um tempo sem tempo. De tão distante, o futuro era a promessa do que a imaginação e a ambição ousassem sonhar. O tempo era uma linha a que não se vislumbrava o fim. Jamais se esgotava, havia sempre tempo. Tempo para viver, para experienciar, para errar, para recomeçar. Nunca era tarde, até o ser. O que haveria de ser ficou por cumprir e jaz no campo das hipóteses. O horizonte temporal deixa perceber onde termina e cada dia é um dia a menos para o que falta do resto da vida. Contraria-se o amargo de boca com uma alegria fingida e agarra-se, qual bóia de salvação, a falsa e tão propalada expectativa de que "nunca é tarde". Como se a vida nunca se esgotasse e houvesse sempre tempo.
Há dias maus e há dias muito maus. E depois há os outros, os verdadeiramente muito maus, a que, caso tivéssemos escolha, nos furtaríamos. São um verdadeiro murro no estômago, que nos atiram “borda fora”, que nos roubam o chão. Que fazem doer. Porém, há os dias bons e os dias muito bons. E depois há os dias excecionalmente esplêndidos. Verdadeiramente felizes. Energia positiva que alimenta o corpo e a alma. Que aquece o coração. Ambos, os dias bons e os dias maus, deixam marca, acentuada ou mais ténue. São memórias que carregamos, e que, a espaços, regressam, ainda que não as convoquemos. São memorandos, páginas de um livro que se vai avolumando de uma história cujo desfecho desconhecemos.

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