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Mensagens

Nunca me chamaste Amor

Nunca me chamaste Amor. Dizem-me que quando queremos muito, por vezes, o nosso desejo transforma-se em realidade. Sei, contudo, que é ténue a fronteira que separa a realidade da ilusão. Nunca me chamaste Amor. Dizem-me que mais do que as palavras contam os gestos. Sei, porém, que o corpo pode falar uma linguagem diferente da do coração. Nunca me chamaste Amor. Dizem-me que não devemos querer regressar aos lugares onde fomos felizes. Sei, todavia, que as recordações confortam, mas não trazem de volta o passado. Nunca me chamaste Amor.            

Quando os olhos falam

É com o olhar que te falo quando preciso do teu abraço ou quando necessito estar só por sentir que dois são uma multidão. O meu olhar é o braille que aprendeste a ler sem precisares sentir o relevo nas pontas dos dedos. Sabes quando preciso do amigo ou do amante, quando ficar ou partir. De nada valem as palavras se não fores capaz de ler no meu olhar o que me vai no íntimo.

As cartas que nunca vais ler

Eis-me a escrever-te mais uma vez, mais uma carta que sei que nunca vais ler. Ficará guardada, algures, como todas as outras que te escrevi. São já tantas, tantas. Escrevo-as para ti, mas não para que as leias. Não sabes, mas começo as frases demasiadas vezes com a palavra NÃO. Saberias se as lesses. NÃO é sinónimo de negação. É sinal de afirmação. E quantas vezes um ato de coragem. É negação quando me recuso a ver as evidências. É afirmação quando enfrento a verdade. É coragem quando ouso dizer NÃO. Não sabes, mas vivo numa montanha russa, ora na adrenalina das alturas, ora na aflição da queda vertiginosa. As cartas que te escrevo são o diagnóstico dessa bipolaridade. Escrever-te esgota-me. Às vezes liberta-me. Não sabes, mas escrever-te é a forma de te manter vivo.

Nunca tive jeito com as palavras

Nunca tive jeito com as palavras. Caíam qual folhas secas no despontar do Outono quando me envolvias em teus braços e me transportavas para outra dimensão. Nunca tive jeito com as palavras. Sumiam-se de cada vez que desenhavas no abstracto um futuro de sonho e me fazias crer no impossível. Nunca tive jeito com as palavras. Ficavam estranguladas na garganta quando dizias que eu era o teu mundo e me fazias sentir a estrela mais brilhante do Universo.   Nunca tive jeito com as palavras. Não fui capaz de, através delas, fazer-me entender quando tentei justificar o injustificável. Não perdoaste o imperdoável e eu, sem jeito com as palavras, deixei o silêncio falar mais alto. Nunca tive jeito com as palavras. Não as encontrei quando precisei delas para dar respostas às tuas questões. Impuseste o ponto final. Nunca tive jeito com as palavras. Não achei que fosse importante dizê-las porque achava que me entendias sem que fosse necessário falar. Não aprendes...

Perda

Deambulava ao acaso no frenesim da cidade. Caminhava sem saber para onde, sem ver com quem se cruzava, sem sentir a azáfama da urbe. Os seus pés arrastavam-se no chão, como se carregasse o mundo às costas. O olhar, esse era infinitamente triste, carregado de mágoa, espelhando a dor que sentia no mais íntimo do seu ser. Sem intenção alguma, entrou por uma porta ampla, de madeira envelhecida. Não sentiu, tão pouco se deixou envolver pela paz daquele lugar sagrado. Deu por si de joelhos, ante a imagem da Virgem. Fechou os olhos para de novo os abrir e fitar a imagem, já as lágrimas escorrendo, sem controlo algum, pelo rosto marcado pelas noites sem dormir. Desejou o mesmo destino que lhe roubara o seu amor, o seu amado filho, o seu único filho, uma vida ceifada na flor da idade, num acidente igual a tantos outros que sucedem todos os dias, a toda a hora, em qualquer parte do mundo, mutilando famílias que nunca superarão tão horrenda perda. Como era grande e tão insuportavelmente doloro...

Memórias

Fomos o tanto que por ser demasiado não soubemos manter. Fomos o tudo que quisemos para sempre esquecendo que o eterno só o é enquanto dura. Fomos o real quando as nuvens eram o nosso chão. Fomos verdade na mentira de uma história por contar. Fomos estrela sem firmamento porque não cabíamos no infinito. Fomos certeza na dúvida do futuro. Fomos luz nas trevas. Fomos paz na guerra. Fomos silêncio no tumulto. Fomos água na terra árida. Fomos brasa no frio do Inverno. Fomos.

Recomeço

Podia ter-te pedido para ficares, mas não o fiz. Deixei que partisses e fiquei, presa ao chão, a ver-te ir embora. Ainda olhaste para trás, mas não deixei que visses a dor que me consumia. Fingi uma determinação que não sentia e aguentei firme e estoicamente até te perder de vista. Não me lembro quanto tempo ali fiquei nem o que fiz a seguir. Tenho, porém, a certeza de que foi o recomeço mais difícil que alguma vez tive que experimentar. Sei que fui eu que te empurrei para fora da minha vida. Sei que foi das decisões mais árduas e sofridas que alguma vez tive que tomar. Sei porque o fiz. Fá-lo-ia de novo, ainda que tivesse que passar pelo mesmo tormento. Porque ser feliz não é parecer feliz.