Percorreram de mãos dadas o caminho que os conduziria ao mar. Como que indiferentes às temperaturas que arrepiavam o termómetro e ao vento gélido que lhes trespassava as vestes, trilhariam o percurso de sempre para se deterem junto a esse imenso oceano. Partilhavam a mesma paixão pelo mar e o gosto por esse refúgio, vezes sem conta testemunha das suas juras de amor, eterno enquanto durar. O dia quase no fim, dois corpos que se abraçam, uma imensa partilha sem palavras serem ditas.
O toque do sino, anunciando as horas, fez-se ouvir, quebrando o silêncio e trazendo-o de volta à realidade. Não dera pelo tempo passar, absorto e perdido em pensamentos, arrastado para as memórias com que ia esbarrando a cada divisão da casa, que ia percorrendo com vagar. Como não lembrar daquela casa cheia de vida, repleta de gente, numa permanente azáfama, típica das famílias numerosas. De repente, era de novo um menino, perdido em tropelias com os irmãos, qual deles o mais travesso. A voz da mãe a chamar para a mesa, o cheirinho da comida de conforto, memórias tão vívidas que um arrepio lhe percorreu a espinha. Tateou a mesa da sala, onde tantas vezes partilharam refeições, risos e alegrias. A sala de jantar testemunha dos momentos mais felizes, mas também dos mais tristes, como as despedidas dos avós e, mais tarde, dos pais. Piscou os olhos, na ânsia de afastar as lágrimas que ameaçavam brotar. Invadiu-o a nostalgia, sentindo ecoar, num lamento, a canção de Pedro Abrunho...
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