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Perda

Deambulava ao acaso no frenesim da cidade. Caminhava sem saber para onde, sem ver com quem se cruzava, sem sentir a azáfama da urbe. Os seus pés arrastavam-se no chão, como se carregasse o mundo às costas. O olhar, esse era infinitamente triste, carregado de mágoa, espelhando a dor que sentia no mais íntimo do seu ser. Sem intenção alguma, entrou por uma porta ampla, de madeira envelhecida. Não sentiu, tão pouco se deixou envolver pela paz daquele lugar sagrado. Deu por si de joelhos, ante a imagem da Virgem. Fechou os olhos para de novo os abrir e fitar a imagem, já as lágrimas escorrendo, sem controlo algum, pelo rosto marcado pelas noites sem dormir. Desejou o mesmo destino que lhe roubara o seu amor, o seu amado filho, o seu único filho, uma vida ceifada na flor da idade, num acidente igual a tantos outros que sucedem todos os dias, a toda a hora, em qualquer parte do mundo, mutilando famílias que nunca superarão tão horrenda perda. Como era grande e tão insuportavelmente dolorosa a dor que lhe oprimia o peito! Fitava a imagem, um borrão entre o vale de lágrimas, sem sequer lhe ocorrer que ela conhecia a sua dor, porque também ela a sentiu. Perdeu o seu amado filho, o seu único filho. Tal como ela. Foi-se embora sem ver que a Senhora chorou com ela.

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Silêncio

Quando o silêncio é tão estrondosamente ruidoso retumba no peito e agita a mente. Não se ouve, contudo, grita. É avassalador. Assume o poder das mais duras palavras, é eco de uma multidão. É poderoso, porque domina, torna refém. Não permite refúgios nem evasões. É inteiro, porquanto preenche, toma todas as dimensões. Mil vezes os gritos. Tal silêncio não traz serenidade nem acalma. Mata.

Letargia

  Vive agora num permanente estado de letargia. Tem consciência disso, mas vontade nenhuma de inverter a situação. É como se tivesse caminhado durante horas e não possua já forças para dar um só passo que seja. Cansaço. Será, afinal, esse o diagnóstico? Não o sabe, tampouco quer saber. Basta-lhe permanecer quieta, não colocar interrogações, ainda que num frémito de clarividência se questione. Estará ela a cair nas malhas dessa coisa a que chamam depressão? Não, seguramente que não, ainda que não consiga clarificar por que razão se mantém apática, indiferente ao que antes a trazia motivada. Sente-se como um balão que, de repente, se esvaziou. Está sem conteúdo, vazia. Pouco lhe importa se é noite ou se é dia. Não se quer obrigar a pensar, a reagir ou sequer a pedir ajuda. Só quer ficar, porque não vê vantagens em ir.

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