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Outono da vida

 


Chegou ao outono da vida sem se dar conta de como o futuro se fez presente tão cedo. O caminho outrora tão longo tornou-se curto, como a meta que se avista na reta final da corrida. A infância onde ontem brincava não passa de uma memória longínqua e a primavera da vida de tão efémera está igualmente distante. 

Chegou ao outono da vida como quem chega ao fim do percurso sem ter gozado a viagem. A idade confere sabedoria, mas impõe lucidez. O tempo que sempre lhe faltou sobra-lhe agora. Pesam, contudo, as ausências e já não é possível recuperar abraços.




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  Vive agora num permanente estado de letargia. Tem consciência disso, mas vontade nenhuma de inverter a situação. É como se tivesse caminhado durante horas e não possua já forças para dar um só passo que seja. Cansaço. Será, afinal, esse o diagnóstico? Não o sabe, tampouco quer saber. Basta-lhe permanecer quieta, não colocar interrogações, ainda que num frémito de clarividência se questione. Estará ela a cair nas malhas dessa coisa a que chamam depressão? Não, seguramente que não, ainda que não consiga clarificar por que razão se mantém apática, indiferente ao que antes a trazia motivada. Sente-se como um balão que, de repente, se esvaziou. Está sem conteúdo, vazia. Pouco lhe importa se é noite ou se é dia. Não se quer obrigar a pensar, a reagir ou sequer a pedir ajuda. Só quer ficar, porque não vê vantagens em ir.

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