quinta-feira, 14 de julho de 2011

Dissipam-se os dias



Dissipam-se os dias qual contas do rosário desfiadas numa reza corrida como quem tem pressa de ver atendida a sua prece. Rodam implacavelmente os ponteiros do relógio transformando o presente em passado depressa demais. Repetem-se os dias, as rotinas, os gestos, hoje como ontem, quase sempre iguais. Pergunta-se ao tempo porque foge pedindo-lhe que volte para trás.
Outrora longa, a estrada vai-se fazendo cada vez mais curta, sinal de que há cada vez menos caminho para percorrer. A todo o momento a viagem pode terminar, sem aviso prévio, e é sempre curta, por mais anos que tenham passado. Fica sempre algo por viver, por fazer, por dizer…
A intensidade das coisas não se mede pelas palavras que são ditas, mas pela forma como são sentidas e vividas. Como expressar por palavras a dor de perder alguém, o nascimento de um filho? Como explicar a sensação de voar sem tirar os pés do chão, tocar as nuvens sem lhes pôr a mão?
Dissipam-se os dias que hão-de dar lugar a outros, igualmente escassos e fugidios. Agarram-se os dias de sol e os de chuva, deixa-se o frio entranhar os ossos e o vento fustigar o rosto, cada vez mais marcado pelo tempo. Cozinha-se a esperança em lume brando sempre à espera do amanhã, deixando passar o hoje. Foge a gaivota do mar em dia de tempestade…

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